Perfil
Enúbio Queiroz: ‘Meu vício é a viola’
São José do Rio Preto, 29 de setembro de 2007
O leitor já ouviu o Hino Nacional tocado na viola? Não sabe o que está perdendo. É daqueles momentos que você louva a Deus por ter inspirado o homem. E foi assim, em 2005, quando o violeiro Enúbio Divino de Queiroz abriu a comemoração do 27º aniversário do escritório Governança e Gestão, do advogado e jurista rio-pretense Durval Noronha Goyos, em São Paulo. Tocou também Ave-Maria, de Gounod, e música-raiz, de viola. Seu parceiro foi Nilson Toledo, apelidado Curau. Num ambiente refinado e culto, o som dolente da viola emocionou a platéia. Podia-se ver convidados às lágrimas. Tudo a ver: o hino da pátria em acordes caboclos. A vida de Enúbio é a música de viola: tem seis CDs gravados, compôs 50 músicas entre letra e música, já lançou três DVDs-aula, administra sua loja de instrumentos musicais e faz shows. Tudo na base da viola. E lança em outubro um DVD-aula, ‘Viola Caipira - Ornamentos e Malabarismos’. No dia 1º de outubro de 2006, ele se apresentou no quadro ‘Se vira nos 30’, do Programa do Faustão (Rede Globo) e acabou ficando 10 minutos no ar, tocando e fazendo malabarismos na viola. Tocou o ‘Parabéns a você’ com o cotovelo, com o queixo, com a mão esquerda, fazendo piruleta, com a viola nas costas, no colo, com uma mão só.
“É um músico que dispensa estudos. Um grande violeiro. Está levando o nome de Rio Preto para fora. Considero-o o maior nome da área hoje. A cidade tem orgulho de ter um profissional como ele,” disse o músico e historiador Fernando Marques, diretor do Departamento Cultural do Automóvel Clube. Na semana passada, Marques entrevistou-o no seu programa ‘Rio Preto Em Foco’, no Canal 16. Além da boa mistura da música cabocla com a MPB, Enúbio também desempenha uma honrosa sucessão da dupla Vieira e Vieirinha que tinha loja de instrumentos e lá reunia os colegas. Hoje, eles fazem ponto na esquina da Marechal com Luiz Antônio da Silveira, onde Enúbio vende violas, violões, teclados, microfones, etc. É um homem inteligente, bonitão, vaidoso, ótimo papo. Como a maioria dos violeiros, sabe contar histórias e causos. E ao som de ‘Gente Humilde’, de Garoto (música) e Vinicius de Morais (letra), na viola, conversamos com ele. Tocou também um minueto de Bach, que fez lembrar um cravo barroco, e fez uma demonstração de malabarismo musical. Todo dia, ele dedilha as cordas. “Meu vício é a viola.
”Ter sorte, em tudo, é com ele mesmoSeu dia começa às 6h30, se exercita um pouco, abre a loja. Fim de semana faz shows e acompanha a mulher à fazenda. Teve sorte em tudo. “Acho que nessa vida, o azar não teve chance comigo. Arranjei bons parceiros, meus filhos são gente boa, estudando, trabalhando, minha mulher é sensacional. E sempre trabalhei com aquilo que gosto. É ou não é sorte?” “Não tenho nenhum trabalho independente, todos os meus CDs foram lançados pelas gravadoras de São Paulo, assim como cursos. Tem uma editora que me paga direitos autorais pelos livros.” Viver de música é uma briga feia. Qual o conselho que ele dá aos interessados? “Em primeiro lugar, acreditar em si mesmo. Depois, estudar o máximo possível, sempre reciclando, melhorando, e trabalhar.” De tanto escrever os cursos, solar músicas e estudar até duas horas da madrugada, sofreu tendinite por um ano. Às vezes, assiste à televisão com a viola na mão.
Sonhos que tinha já realizou? “Nosso sonho nunca acaba, a gente está sempre querendo fazer mais trabalho, mais viagem.” Estão em andamento a gravação de um CD para relaxamento, com sons da natureza e viola; um CD com o nome ‘Viola Nua e Crua’; um DVD instrumental, já gravado, ainda não lançado. E um livro escrito já pela metade, biográfico, 30 capítulos, com depoimentos. “Conto o que fiz, o que vai ser muito bom para quem está começando, aquilo que eu não faria de novo, ou que faria, ou que deveria fazer.” O seu sonho foi além do que esperava. “Não sou acadêmico, foi tudo na raça, só conservatório. Mas fiquei sabendo que tem faculdade de viola caipira em Ribeirão Preto, o reitor é Ivan Vilela. Se o curso vier para Rio Preto, vou fazer.
”Um hino emocionante para platéia chiqueO advogado Noronha Goyos comemorou o aniversário da sua empresa jurídica com o evento ‘Rio Preto mostra sua arte’, levando para São Paulo o que ele considera de bom em vários segmentos. Enúbio e Curau deram um show para a nata da advocacia paulistana e para amigos rio-pretenses de Noronha. “Foi praticamente um presente pra mim,” diz Enúbio. A idéia do Hino Nacional na viola surgiu quando ele foi convidado para participar de um simpósio de produtos veterinários e agropecuária. O engenheiro organizador pediu que tocasse a música pátria para abrir o evento. “Fiquei 20 dias treinando. Depois ele me trouxe o vídeo, e achei que tinha condição de fazer um trabalho bem melhor, na viola. Convidei um amigo maestro, Jorge Genovês, que mora em Tanabi, para transcrever mesmo, de verdade, fazer um arranjo legal.” Enúbio também toca Bach e Bethoveen, populares clássicas (como Luzes da Ribalta, de Charles Chaplin) e MPB.
De loja em lojaPor outro lado, as aulas aumentaram. Ele, sempre otimista, fazia contatos na área, um deles com a fábrica Gianini, que acabou virando negócio, e lá estava ele vendendo instrumentos musicais. Abriu a primeira loja na Silva Jardim, depois teve dois endereços na Boa Vista. Há cinco anos, estabeleceu-se perto da escola Ezequiel Ramos, num imóvel da década de 40, que conjuga loja, escola de música e moradia da família. A loja tem o nome Danúbio Instrumentos Musicais. “Escolhi o nome porque o rio Danúbio lembra valsa. E eu sempre que falava Enúbio, o cara escrevia Danúbio. É mais fácil, mais popular.” Na época da primeira loja, casou-se com a empresária Suely (“meu braço direito”), recebendo apoio total da família. “Eles acreditaram em mim.” Dos filhos, só Felipe enveredou pela música. É pianista, começou cantando sertanejo com o pai, agora está na fase da bossa-nova e MPB.
QUEM É:
:: Nascimento: 1º de outubro de 1953:: Local: Fazenda Monte Alto, Iturama:: Lições de música: Otaviano Francisco da Silva (“Baiano”); Sebastião Pandolfi, maestro da banda municipal de Iturama; Conservatório Renato Frateschi, de Uberaba (com o professor Olegário Bandeira); Eurípides Fontenelli (Goiânia); Conservatório Musical Carlos Gomes (Rio Preto); professor Paulo Barreiro (São Paulo).:: Casamento: com a empresária Suely Giacheto (1988):: Filhos: Denis, Carla e Felipe Pais: Rodolfo e Aparecida Queiroz:: Irmão de: Iolanda e Ivani:: Time: Corinthians:: Religião: Perfect Liberty:: TV: gosta de programas de ecologia, documentários da natureza e animais:: Suas músicas: falam de animais, natureza, pássaros, acabou de compor ‘Seriema do Araguaia’, imitando o canto dela:: Ídolo: Renato de Andrade (que revolucionou a viola):: Duplas: Economista & Contador, com João Roberto Costa; parceria com Abssoir José Correia:: Obras - DVDs: Viola Caipira Básica; Viola Caipira Intermediária; Viola Caipira Avançada:: Obras - CDs: Moda de Viola; Viola Refinada; Riacho dos Passarinhos; Canção do Meu Sertão; Viola Caipira 4:: Métodos: Repertório de Ouro com CD; Pedagogia da Viola Caipira:: Parceiros: Nilson Toledo, Felipe Queiroz, Edson Pereira
Fonte: Diário da Região
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